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Resenha: A Pele Que Habito

10 jan

Maratona de cinema 2011: Dia 23 – A Pele Que Habito

Almodóvar está em uma categoria de diretores onde seus trabalhos se tornam sucessos absolutos ou fracassos retumbantes. Diretor experiente, chegado a tramas que exploram as mais variadas formas da sexualidade e relacionamentos problemáticos, para não dizer doentios, Almodóvar conseguiu em sua nova parceria com Antonio Banderas se encontrar definitivamente. Não abriu mão das bizarrices que cercam sua filmografia, mas esbanjou maturidade e auto controle em um thriller perturbador.

Robert Ledgard (Banderas) é um famoso cirurgião plástico que convive com o tormento da morte de sua esposa, carbonizada em um acidente automobilístico. Para lidar com a situação, ele dedica sua vida e fortuna a criação de um novo tipo de pele sintética, mais resistente e quase invulnerável. Suas pesquisas o levam ao limite da ética científica e, sob seus cuidados, uma misteriosa mulher se oculta trancafiada em um quarto da grande mansão da família. O passado de Vera (Elena Anaya) se funde a outras tragédias na família de Ledgard, e quando esse passado é desvendado, ele se torna tão surpreendente quanto assustador.

Não é justo revelar muito, por isso, paro por aqui. O que vale dizer é que Almodóvar encontrou uma locação incrível, uma belíssima mansão, onde se desenrolam os fatos principais do filme, e a utilizou de maneira inteligente, enchendo-a de charme, mistérios e perigos, tornando o local um personagem tão importante, se não mais, do que qualquer outro.

Banderas sempre será um canastrão, mas aqui sua atuação mais contida, sem caras e bocas, mostra que também amadureceu. Está livre da condição de símbolo sexual latino, a idade impôs isso a ele, e agora começa a atuar de verdade, e surpreende no papel do médico atormentado. Sua frieza e elegância o colocam no hall da fama ao lado de outros simpáticos psicopatas, como Hannibal Lecter, mantendo-se, é claro, as devidas proporções.

Elena Anaya, com sua frágil beleza, foi um tremendo acerto para o elenco. Como atriz também possui suas limitações, mas sabe como usar suas formas para cativar e dar realismo a uma importante personagem, cujas expressões corporais são mais importantes que os diálogos.

O roteiro do próprio Almodóvar, baseado no romance “Tarantula” de Thierry Jonquet (lançado no Brasil pela Editora Record e que, infelizmente, não li) é um espetáculo a parte. Inteligente, perturbador, abrangente e contraditório em si próprio, um paradoxo de perversidade e libertação, não deixará ninguém sair do cinema incólume.

A liberdade criativa de Almodóvar, só possível fora do âmbito hollywoodiano, produziu uma pequena joia do cinema em 2011, para ver e se assustar, sem máscaras… ou não.

 
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Publicado por em 10/01/2012 em Cinema

 

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